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<?xml-stylesheet type="text/xsl" href="../assets/xml/rss.xsl" media="all"?><rss version="2.0" xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"><channel><title>Nando Florestan's blog (Posts about audio)</title><link>https://read.nando.audio/</link><description></description><atom:link href="https://read.nando.audio/categories/audio.xml" rel="self" type="application/rss+xml"></atom:link><language>en</language><copyright>Contents © 2026 &lt;a href="mailto:nandoflorestan+read@gmail.com"&gt;Nando Florestan&lt;/a&gt; </copyright><lastBuildDate>Sat, 05 Sep 2026 14:50:52 GMT</lastBuildDate><generator>Nikola (getnikola.com)</generator><docs>http://blogs.law.harvard.edu/tech/rss</docs><item><title>Som ensurdecedor em cinema paulistano</title><link>https://read.nando.audio/posts/kinoplex.html</link><dc:creator>Nando Florestan</dc:creator><description>&lt;p&gt;Em 2026-09-04, assisti à "Odisseia" no cinema Kinoplex Itaim. A sala número 2 é famosa pelo conforto: o espectador pode reclinar sua poltrona. Tudo na projeção estava muito bom, com exceção de um enorme detalhe:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O volume do som estava tão despropositado que o som distorcia dentro do organismo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;As partes quietas do filme – diálogos às vezes cochichados entre as cenas de ação – soavam fortíssimo. Não havia som delicado ou baixo. Quando chegava a próxima cena de ação, ela estourava os ouvidos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mais ou menos uma hora após o começo do filme eu já sentia dor nos ouvidos e dor de cabeça, por isso saí da sala e pedi baixar o som à primeira pessoa que encontrei. Aqui começou a &lt;em&gt;minha&lt;/em&gt; odisseia, pois os funcionários já têm respostas prontas para figuras inconvenientes como eu, que ousam pedir que a experiência seja compatível com o corpo humano. Tentam fazer você se sentir um louco que pede o que não é razoável:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;– O som está no volume correto, passado para nós pela distribuidora do filme, aferido por experts, numa sala de projeção totalmente automatizada.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Minha resposta: – Eu sou músico e entendo um pouco de som, tenho até conhecimentos de mixagem, por um tempo tentei ser compositor para filmes. O som está distorcendo dentro do ouvido, portanto está objetivamente alto demais.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;– Mas é que esse filme tem o som alto mesmo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;– Não existe isso. Hoje a indústria usa um algoritmo de &lt;em&gt;loudness normalization&lt;/em&gt; para determinar e equilibrar o volume de diferentes programas de áudio.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;– Mas o equipamento é muito bom e está todo nos conformes.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;– O equipamento é maravilhoso, adoro ver filme no cinema por causa disso, mas não adianta nada o som ser projetado perfeitamente pelo equipamento, se o volume excessivo adultera a percepção.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;– Vou pedir para baixar o volume.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;– Grato.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Voltei ao meu assento (D6, bem no meio da sala) e após um minuto pareceu-me que baixaram um pouco, algo próximo de 6 dB, o que obviamente não era suficiente para resolver um problema em que a pressão sonora chegava acima de 100 dB NPS. Na próxima cena de ação, o volume estava novamente insuportável, fazendo-me enfiar os dedos nos ouvidos, que músico não deve arriscá-los.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Saí novamente e pedi para ver o gerente. Ele já chegou muito contrariado, tratando-me novamente como um louco. A conversa repetiu-se e então continuou assim:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;– Se baixarmos mais, pode negativamente afetar a experiência de outros espectadores.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;...como se existisse reclamação em cinema por volume baixo demais!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;– Isto aqui não é questão de preferência pessoal, você teria de baixar muito o som para chegarmos a essa discussão. Estamos falando aqui de algo objetivo: o som não é escutado de acordo com a intenção dos criadores do filme, apesar do melhor equipamento de reprodução, porque distorce no aparelho auditivo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ao ouvir as últimas palavras ele reagiu: – Você usa aparelho para audição???&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;– Não! Mas os teus clientes poderão precisar, uma vez que o filme dura duas horas e quarenta minutos, e o volume está comparável ao de uma serra elétrica.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Passei a explicar que o som são vibrações no ar que estimulam os tímpanos; o tímpano passa essas vibrações a 3 ossinhos em sequência; o último ossinho passa as vibrações à cóclea, uma pequena bolsa com um líquido dentro, uma membrana no meio e cílios externos que se conectam a neurônios. A cóclea decompõe o som em frequências e as envia ao cérebro como impulsos elétricos. Esse é o aparelho auditivo, sujeito a distorção do som por estimulação excessiva.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ele não queria ouvir uma pequena aula de biologia: afirmou já saber. Mas continuava negando que o som do cinema estivesse exagerado.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tudo o que ele dizia causava a necessidade da mesma resposta: – Contra fatos não há argumentos. O som está brutal demais para consumo humano.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Como ele não cedia, pedi meus R$88,00 de volta. Ele olhou o relógio – a sessão havia começado às 13:45 –, disse que já havia passado da metade do filme e por isso não podia devolver o dinheiro. Não verifiquei essa informação. (Na verdade não me importo com o dinheiro, importo-me com o fato de que no Brasil encontro ignorâncias tão burras, mas tão burras, que me torno um cavaleiro solitário tentando influenciá-las.)&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;– Pensando bem, eu não ligo para o dinheiro. Mas vou sair do meu caminho para resolver este problema, porque eu gosto de vir aqui pra ver filme, e deste jeito não é possível.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ouvindo isso, ele me convidou a entrar novamente na sala para aferirmos. Enquanto andávamos e abríamos a porta, ele continuava afirmando que o som estava correto, e eu que ele estava equivocado.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ao entrarmos, o filme estava numa de suas cenas mais quietas. O gerente passou a falar baixinho, quase um cochicho, como se as nossas vozes ao lado da sala pudessem incomodar aos outros quatro espectadores presentes. Um golpe sujo e manipulador, comportar-se no inferno como se biblioteca fosse. Eu sem pensar imitei-o e falei baixinho também, que a minha tendência é respeitar os outros para além da minha percepção do que poderia incomodá-los.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ao ver-me sussurrar ele sorriu. Disse então que ia baixar mais um pouco o som e convidou-me a sentar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Era isso que eu queria ouvir, então fui para o meu lugar e ele saiu da sala. Desta vez não detectei mudança alguma no volume.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Eu não pretendia brigar pelo meu dinheiro – trouxa que já pagou dificilmente consegue reverter. O problema é muito maior do que meus noventa reais: afeta milhares de brasileiros todos os dias e fatalmente contribuirá para causar neles perda auditiva, numa cidade que já faz isso sozinha através de suas reformas incessantes, construções contraproducentes, ônibus barulhentos e cidadãos destituídos de consideração que andam portando a própria música na rua como se estivessem fazendo um favor ao bairro inteiro. Uma cidade com pamonhas, de pamonhas, para pamonhas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Enfim, assisti ao resto do filme com o dedo no ouvido, o que obviamente arruína a experiência pelo cansaço dos braços, pela severa equalização indesejada do som, e pela contrariedade emocional.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ao começarem os créditos, perguntei ao casal na mesma fila: – Com licença, o que acharam do volume do som nessa projeção?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ela respondeu "bom", ele respondeu "alto demais". Destarte, desconfortáveis 33% da minha ridícula amostragem não percebem o problema.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ao sair, sentei-me na salinha de espera e refleti uns minutos sobre o que fazer. Passou pela minha cabeça que, se eu ia dar uma de Dom Quixote, que fosse por alguma causa mais importante, um dos inúmeros problemas sociais, e não esta normose na indústria do entretenimento. Mas também lembrei que os profissionais que fizeram o filme foram traídos, a saúde do público é prejudicada, eu paguei por essa catástrofe e a situação toda é profundamente estúpida.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Dom Quixote representa a cruzada de um homem só: o sujeito que enfrenta o mundo para resolver um problema que só ele enxerga. Cercado de conformistas e conformados, sua coragem normalmente teria muito valor; mas equivocada só resulta em tragédia para ele e para os outros. É por isso que a estratégia usada pelo Kinoplex contra mim é o &lt;em&gt;gaslighting&lt;/em&gt;: negar veementemente o problema, não admitir sua existência jamais, como se eu visse gigante onde há só moinho.&lt;/p&gt;
&lt;!-- Ninguém nunca disse "o gênio está na força exagerada e inumana que aniquila teus sentidos ao invés de estimulá-los". Picasso não usa telas maiores que as dos outros, nem usa tintas especiais que os outros não têm, nem projeta luzes na tua cara que te impeçam de discernir os desenhos. Ao contrário, todos os pintores usam os mesmos recursos, e é dentro desta limitação, de resto apenas humana, que exercem sua genialidade. A diferença entre o bom e o mau pintor está em como usam os mesmos recursos. As composições fortes e ousadas, para sua apreciação, requerem sentidos humanos aguçados e quantidade de luz dentro do padrão. Ou seja, a violência está nas ideias, e não no nível dos sentidos. --&gt;

&lt;p&gt;A música clássica usa a intensidade do som como um de seus meios expressivos: a alternância entre piano e forte não é diferente daquela presente nesse filme, A Odisseia. A música clássica fornece um método claro para se encontrar o volume certo. Parta daquele momento em que, do tutti orquestral, sobra apenas um fagote ou uma flauta tocando pianíssimo. Se você não consegue escutar as notas do solo, o volume está baixo demais, suba-o. E se você consegue escutar o som com clareza e sem mistério, o volume está alto demais, desça-o, que senão, quando vier o tutti a casa vai cair. Assim você ouvirá com máximo detalhe o discurso musical, sem buraco e sem causar surdez.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;No limite superior da intensidade do som, tanto música erudita como cinema ameaçam com o excesso, com a violência, com o desagradável. Mas eu não preciso morrer para entender que um personagem morreu.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Um quadro genial não atinge seus objetivos estéticos através de cegar o público. A violência não deve residir no nível dos sentidos e sim na composição e nas ideias. O épico provém do contraste e não da sensação de cansaço.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tanto a música clássica quanto o cinema usam os quase 60 dB saudáveis de diferença de pressão sonora como recurso expressivo. Ao fazerem isso, tornam ociosa a discussão sobre volume: há apenas uma resposta correta e ela é fácil de achar!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O Spielberg está chateado com a decadência do cinema e nas suas entrevistas lembra o público de que o cinema é uma experiência comunitária que envolve reações contagiantes. Segundo o Spielberg, morre um ursinho carinhoso toda vez que alguém vê um filme na minúscula telinha do telefone. O Spielberg é um grande realizador que nesses momentos torna-se um Quixote predileto, então procuro ir ao cinema pra ele ficar feliz. Mas aí algum asno bota o volume no máximo, traindo o criador, o público, a experiência estética, a arte do cinema, o direito do consumidor, a saúde do corpo humano, tudo de uma vez só num único gesto que não leva um segundo para executar: o giro do potenciômetro.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Volume excessivo em cinema paulistano é mais comum que taiko drum em filme da Marvel. A gente geralmente suporta em silêncio. Mais de 20 anos atrás houve uma ocasião em que reclamei do som ensurdecedor da projeção diretamente ao seu encarregado. Jamais esquecerei sua resposta: O som era assim mesmo porque era digital.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas muito além da ignorância de funcionários para quem o único volume bom é o máximo, acho que acontece algo maior na busca amoral do lucro.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;As empresas hoje têm expertise sim e sabem perfeitamente o que estão fazendo. Intuo que a cúpula do Kinoplex enxerga seu público com desdém: os espectadores são burras mariposas que só ficam satisfeitas se orbitarem até a exaustão uma luz que as cega. O objetivo não é prover uma experiência estética, e sim uma violenta catarse Marvel em que os sentidos do público sejam prejudicados o suficiente para afetar negativamente o dia seguinte. Pois o jovem paulistano precisa acordar com ressaca no sábado, senão significa que na sexta não se divertiu.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Essa minha tese nunca será comprovada. Mas o que é inegável é que os cinemas brasileiros prejudicam a saúde auditiva de seus clientes, portanto não foi com ela em mente que cuidadosamente ajustaram o volume nas salas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Com uns pensamentos assim levantei-me do sofá e pedi para chamarem aquele gerente pela segunda vez. Desta vez veio outro. Pedi pra conversar com o primeiro. Mas agora estava em reunião. Perguntado do que se tratava, expliquei tudo novamente.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Perguntei ao gerente número dois se o Kinoplex tem ouvidoria, a resposta foi que tem SAC.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;– Eu disse "ouvidoria". Meu objetivo é iniciar uma mudança real e duradoura, e não ser despistado por algum chatbot.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;– A orientação que temos da empresa é dar esta resposta indicando o Serviço de Atendimento ao Cliente.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Comentei então que hoje não temos mais a quem reclamar. Acrescentei que estava desapontado, esperava ser recebido novamente pelo gerente. E não tendo mais o que dizer a um funcionário sem poder, fui embora perguntando-me se há algum fim para as barbaridades brasileiras que assaltam o povo das formas mais variadas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Escrevo este texto na manhã seguinte. Enquanto escrevo mesmo, tenho um zumbido no ouvido, aquele de timbre estéril, muito muito agudo, que todos temos após a agressão por música alta demais. Esse zumbido tem sempre uma frequência estática, extremamente fina, muito bem definida. Dura apenas uns poucos minutos. Talvez eu deva aproveitá-los: é possível que eu esteja ouvindo essa frequência pela última vez na minha vida. O último adeus de um axônio.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Eis um momento em que, verdadeiramente, detesto ter razão. Finalmente amaldiçoo a minha insistência, ontem, em terminar de ver o filme no cinema, ao invés de roubá-lo, não pagar nada, vê-lo em casa numa tevê incrível e preservar minha saúde, como fazem todos os sensatos.&lt;/p&gt;</description><category>audio</category><category>brazil</category><category>cinema</category><category>diatribe</category><category>kinoplex</category><guid>https://read.nando.audio/posts/kinoplex.html</guid><pubDate>Sat, 05 Sep 2026 05:02:08 GMT</pubDate></item></channel></rss>