Som ensurdecedor em cinema paulistano

Em 2026-09-04, assisti à "Odisseia" no cinema Kinoplex Itaim. A sala número 2 é famosa pelo conforto: o espectador pode reclinar sua poltrona. Tudo na projeção estava muito bom, com exceção de um enorme detalhe:

O volume do som estava tão despropositado que o som distorcia dentro do organismo.

As partes quietas do filme – diálogos às vezes cochichados entre as cenas de ação – soavam fortíssimo. Não havia som delicado ou baixo. Quando chegava a próxima cena de ação, ela estourava os ouvidos.

Mais ou menos uma hora após o começo do filme eu já sentia dor nos ouvidos e dor de cabeça, por isso saí da sala e pedi baixar o som à primeira pessoa que encontrei. Aqui começou a minha odisseia, pois os funcionários já têm respostas prontas para figuras inconvenientes como eu, que ousam pedir que a experiência seja compatível com o corpo humano. Tentam fazer você se sentir um louco que pede o que não é razoável:

– O som está no volume correto, passado para nós pela distribuidora do filme, aferido por experts, numa sala de projeção totalmente automatizada.

Minha resposta: – Eu sou músico e entendo um pouco de som, tenho até conhecimentos de mixagem, por um tempo tentei ser compositor para filmes. O som está distorcendo dentro do ouvido, portanto está objetivamente alto demais.

– Mas é que esse filme tem o som alto mesmo.

– Não existe isso. Hoje a indústria usa um algoritmo de loudness normalization para determinar e equilibrar o volume de diferentes programas de áudio.

– Mas o equipamento é muito bom e está todo nos conformes.

– O equipamento é maravilhoso, adoro ver filme no cinema por causa disso, mas não adianta nada o som ser projetado perfeitamente pelo equipamento, se o volume excessivo adultera a percepção.

– Vou pedir para baixar o volume.

– Grato.

Voltei ao meu assento (D6, bem no meio da sala) e após um minuto pareceu-me que baixaram um pouco, algo próximo de 6 dB, o que obviamente não era suficiente para resolver um problema em que a pressão sonora chegava acima de 100 dB NPS. Na próxima cena de ação, o volume estava novamente insuportável, fazendo-me enfiar os dedos nos ouvidos, que músico não deve arriscá-los.

Saí novamente e pedi para ver o gerente. Ele já chegou muito contrariado, tratando-me novamente como um louco. A conversa repetiu-se e então continuou assim:

– Se baixarmos mais, pode negativamente afetar a experiência de outros espectadores.

...como se existisse reclamação em cinema por volume baixo demais!

– Isto aqui não é questão de preferência pessoal, você teria de baixar muito o som para chegarmos a essa discussão. Estamos falando aqui de algo objetivo: o som não é escutado de acordo com a intenção dos criadores do filme, apesar do melhor equipamento de reprodução, porque distorce no aparelho auditivo.

Ao ouvir as últimas palavras ele reagiu: – Você usa aparelho para audição???

– Não! Mas os teus clientes poderão precisar, uma vez que o filme dura duas horas e quarenta minutos, e o volume está comparável ao de uma serra elétrica.

Passei a explicar que o som são vibrações no ar que estimulam os tímpanos; o tímpano passa essas vibrações a 3 ossinhos em sequência; o último ossinho passa as vibrações à cóclea, uma pequena bolsa com um líquido dentro, uma membrana no meio e cílios externos que se conectam a neurônios. A cóclea decompõe o som em frequências e as envia ao cérebro como impulsos elétricos. Esse é o aparelho auditivo, sujeito a distorção do som por estimulação excessiva.

Ele não queria ouvir uma pequena aula de biologia: afirmou já saber. Mas continuava negando que o som do cinema estivesse exagerado.

Tudo o que ele dizia causava a necessidade da mesma resposta: – Contra fatos não há argumentos. O som está brutal demais para consumo humano.

Como ele não cedia, pedi meus R$88,00 de volta. Ele olhou o relógio – a sessão havia começado às 13:45 –, disse que já havia passado da metade do filme e por isso não podia devolver o dinheiro. Não verifiquei essa informação. (Na verdade não me importo com o dinheiro, importo-me com o fato de que no Brasil encontro ignorâncias tão burras, mas tão burras, que me torno um cavaleiro solitário tentando influenciá-las.)

– Pensando bem, eu não ligo para o dinheiro. Mas vou sair do meu caminho para resolver este problema, porque eu gosto de vir aqui pra ver filme, e deste jeito não é possível.

Ouvindo isso, ele me convidou a entrar novamente na sala para aferirmos. Enquanto andávamos e abríamos a porta, ele continuava afirmando que o som estava correto, e eu que ele estava equivocado.

Ao entrarmos, o filme estava numa de suas cenas mais quietas. O gerente passou a falar baixinho, quase um cochicho, como se as nossas vozes ao lado da sala pudessem incomodar aos outros quatro espectadores presentes. Um golpe sujo e manipulador, comportar-se no inferno como se biblioteca fosse. Eu sem pensar imitei-o e falei baixinho também, que a minha tendência é respeitar os outros para além da minha percepção do que poderia incomodá-los.

Ao ver-me sussurrar ele sorriu. Disse então que ia baixar mais um pouco o som e convidou-me a sentar.

Era isso que eu queria ouvir, então fui para o meu lugar e ele saiu da sala. Desta vez não detectei mudança alguma no volume.

Eu não pretendia brigar pelo meu dinheiro – trouxa que já pagou dificilmente consegue reverter. O problema é muito maior do que meus noventa reais: afeta milhares de brasileiros todos os dias e fatalmente contribuirá para causar neles perda auditiva, numa cidade que já faz isso sozinha através de suas reformas incessantes, construções contraproducentes, ônibus barulhentos e cidadãos destituídos de consideração que andam portando a própria música na rua como se estivessem fazendo um favor ao bairro inteiro. Uma cidade com pamonhas, de pamonhas, para pamonhas.

Enfim, assisti ao resto do filme com o dedo no ouvido, o que obviamente arruína a experiência pelo cansaço dos braços, pela severa equalização indesejada do som, e pela contrariedade emocional.

Ao começarem os créditos, perguntei ao casal na mesma fila: – Com licença, o que acharam do volume do som nessa projeção?

Ela respondeu "bom", ele respondeu "alto demais". Destarte, desconfortáveis 33% da minha ridícula amostragem não percebem o problema.

Ao sair, sentei-me na salinha de espera e refleti uns minutos sobre o que fazer. Passou pela minha cabeça que, se eu ia dar uma de Dom Quixote, que fosse por alguma causa mais importante, um dos inúmeros problemas sociais, e não esta normose na indústria do entretenimento. Mas também lembrei que os profissionais que fizeram o filme foram traídos, a saúde do público é prejudicada, eu paguei por essa catástrofe e a situação toda é profundamente estúpida.

Dom Quixote representa a cruzada de um homem só: o sujeito que enfrenta o mundo para resolver um problema que só ele enxerga. Cercado de conformistas e conformados, sua coragem normalmente teria muito valor; mas equivocada só resulta em tragédia para ele e para os outros. É por isso que a estratégia usada pelo Kinoplex contra mim é o gaslighting: negar veementemente o problema, não admitir sua existência jamais, como se eu visse gigante onde há só moinho.

A música clássica usa a intensidade do som como um de seus meios expressivos: a alternância entre piano e forte não é diferente daquela presente nesse filme, A Odisseia. A música clássica fornece um método claro para se encontrar o volume certo. Parta daquele momento em que, do tutti orquestral, sobra apenas um fagote ou uma flauta tocando pianíssimo. Se você não consegue escutar as notas do solo, o volume está baixo demais, suba-o. E se você consegue escutar o som com clareza e sem mistério, o volume está alto demais, desça-o, que senão, quando vier o tutti a casa vai cair. Assim você ouvirá com máximo detalhe o discurso musical, sem buraco e sem causar surdez.

No limite superior da intensidade do som, tanto música erudita como cinema ameaçam com o excesso, com a violência, com o desagradável. Mas eu não preciso morrer para entender que um personagem morreu.

Um quadro genial não atinge seus objetivos estéticos através de cegar o público. A violência não deve residir no nível dos sentidos e sim na composição e nas ideias. O épico provém do contraste e não da sensação de cansaço.

Tanto a música clássica quanto o cinema usam os quase 60 dB saudáveis de diferença de pressão sonora como recurso expressivo. Ao fazerem isso, tornam ociosa a discussão sobre volume: há apenas uma resposta correta e ela é fácil de achar!

O Spielberg está chateado com a decadência do cinema e nas suas entrevistas lembra o público de que o cinema é uma experiência comunitária que envolve reações contagiantes. Segundo o Spielberg, morre um ursinho carinhoso toda vez que alguém vê um filme na minúscula telinha do telefone. O Spielberg é um grande realizador que nesses momentos torna-se um Quixote predileto, então procuro ir ao cinema pra ele ficar feliz. Mas aí algum asno bota o volume no máximo, traindo o criador, o público, a experiência estética, a arte do cinema, o direito do consumidor, a saúde do corpo humano, tudo de uma vez só num único gesto que não leva um segundo para executar: o giro do potenciômetro.

Volume excessivo em cinema paulistano é mais comum que taiko drum em filme da Marvel. A gente geralmente suporta em silêncio. Mais de 20 anos atrás houve uma ocasião em que reclamei do som ensurdecedor da projeção diretamente ao seu encarregado. Jamais esquecerei sua resposta: O som era assim mesmo porque era digital.

Mas muito além da ignorância de funcionários para quem o único volume bom é o máximo, acho que acontece algo maior na busca amoral do lucro.

As empresas hoje têm expertise sim e sabem perfeitamente o que estão fazendo. Intuo que a cúpula do Kinoplex enxerga seu público com desdém: os espectadores são burras mariposas que só ficam satisfeitas se orbitarem até a exaustão uma luz que as cega. O objetivo não é prover uma experiência estética, e sim uma violenta catarse Marvel em que os sentidos do público sejam prejudicados o suficiente para afetar negativamente o dia seguinte. Pois o jovem paulistano precisa acordar com ressaca no sábado, senão significa que na sexta não se divertiu.

Essa minha tese nunca será comprovada. Mas o que é inegável é que os cinemas brasileiros prejudicam a saúde auditiva de seus clientes, portanto não foi com ela em mente que cuidadosamente ajustaram o volume nas salas.

Com uns pensamentos assim levantei-me do sofá e pedi para chamarem aquele gerente pela segunda vez. Desta vez veio outro. Pedi pra conversar com o primeiro. Mas agora estava em reunião. Perguntado do que se tratava, expliquei tudo novamente.

Perguntei ao gerente número dois se o Kinoplex tem ouvidoria, a resposta foi que tem SAC.

– Eu disse "ouvidoria". Meu objetivo é iniciar uma mudança real e duradoura, e não ser despistado por algum chatbot.

– A orientação que temos da empresa é dar esta resposta indicando o Serviço de Atendimento ao Cliente.

Comentei então que hoje não temos mais a quem reclamar. Acrescentei que estava desapontado, esperava ser recebido novamente pelo gerente. E não tendo mais o que dizer a um funcionário sem poder, fui embora perguntando-me se há algum fim para as barbaridades brasileiras que assaltam o povo das formas mais variadas.

Escrevo este texto na manhã seguinte. Enquanto escrevo mesmo, tenho um zumbido no ouvido, aquele de timbre estéril, muito muito agudo, que todos temos após a agressão por música alta demais. Esse zumbido tem sempre uma frequência estática, extremamente fina, muito bem definida. Dura apenas uns poucos minutos. Talvez eu deva aproveitá-los: é possível que eu esteja ouvindo essa frequência pela última vez na minha vida. O último adeus de um axônio.

Eis um momento em que, verdadeiramente, detesto ter razão. Finalmente amaldiçoo a minha insistência, ontem, em terminar de ver o filme no cinema, ao invés de roubá-lo, não pagar nada, vê-lo em casa numa tevê incrível e preservar minha saúde, como fazem todos os sensatos.